sábado, 14 de maio de 2011

Chá com Bette
















Sabe Bette,
Outro dia estive pensando como nós artistas que trabalhamos com a arte de interpretar, muitas vezes temos sérias dificuldades de nos comunicar.
Certo dia li, em algum lugar, que ”A comunicação não existe.” Acho que foi Nietzsche quem disse. Você já leu Nietzsche?
Quando li pela primeira vez fiquei chocado e inconformado já que em nossa profissão, um dos maiores veículos, além do corpo, é a palavra, que manifesta a solução para as grandes questões existenciais da humanidade. Num outro momento li que o que há de mais importante no discurso que se diz não está nas palavras escritas e nos pensamentos expressados, mas nas entrelinhas daquilo que está escrito ou dito, isto é, nas entrelinhas do discurso. Segundo Lacan é aí que se apresenta o sintoma. Mas por favor, não me julgue aqui com nenhuma intenção além de ilustrativa. Por falar nisso, você está fazendo análise com quem? Depois me passa o telefone dele, tá?
Hoje, depois de algumas susceptibilidades, começo infelizmente, a crer que todos esses autores que li, têm sua dose de razão. Às vezes, por mais que tentemos, não nos fazemos entender. Não acha? Isso tudo me faz lembrar de muitos ensinamentos de Buddha que jamais negava a verdade de ninguém. Não discordava, mas apenas pregava e agia da forma que pensava e sentia ser a "correta". Não era apenas sua palavra que valia, mas seus atos e princípios.
Certas vezes, você não se sente num claustro quase autista de onde não consegue encontrar a saída? Heim...? Palavras, gestos, posições, pensamentos, afetos expressados tem sido, por nós, de alguma forma não compreendidos. Hoje vejo que apenas uma palavra pode ter tantos significados quanto o número de pessoas que a ouvem ou o número de pessoas que a dizem... Sem falar na entonação e na emoção com que essa palavra é dita.
Mais uma vez me vem a cabeça, Buddha, que afirma de certa forma que a verdade e o conhecimento estão no silencio.
Vejo que poderíamos escrever um tratado , uma bíblia ou mais, até muito mais, de significados de apenas uma palavra. Outro autor de importância, diz que a palavra ou o pensamento, que aqui podem valer quase a mesma coisa, é o castigo da humanidade. O pensamento seria ao invés de uma dádiva, uma sentença. A palavra que nos edifica e redime pode ser aquela que nos julga, castiça e culpa.
Mas por favor querida, não quero com esse assunto tornar nosso chá desagradável, desesperançoso... Longe de mim! Mas apenas dividir pensamentos que infelizmente ou felizmente só podem ser expressos ironicamente através da PALAVRA.
Mas me diz... O que você acha?

2 comentários:

  1. Acho que você escreve muito bem, Edu. Cada vez mais acho que "a verdade e o conhecimento estão no silencio". Não no silêncio que se mostra hermético, indevassável, incapaz de ver o outro (e o(s) outro(s) de si mesmo), mas no mergulho como forma de compreensão dos próprios atos e princípios. E se a comunição não existe, os encontros permanecem como a feição mais bonita do impossível. Nisso, a poesia. De repente me lembrei, pois ando numa fase de leituras de Herman Hesse, de um de seus belos livros: Sidarta. Já leu?

    Um beijo saudoso,

    Beta
    http://sedemfrenteaomar.wordpress.com/

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