quinta-feira, 9 de junho de 2011

Black Out!






Foi com um sorriso enigmático que Clare se despediu de mim depois de uma tarde chuvosa no restaurante. Durante toda a nossa conversa senti que depois da morte de X, Clare parecia mais leve, menos tensa; com um semblante maduro, talvez triste, mas com um ar de tranqüilidade. Clare e eu sempre tivemos os mesmos conflitos e aflições humanas; a necessidade de se sentir útil, bem educado, bem sucedido, muito mais para agradar aos outros do que a nós mesmos...Daí uma enorme sensação de sufocamento e de vazio ao mesmo tempo... Uma ansiedade generalizada, confusa e difusa... Clare havia se libertado, talvez de um "papel"... de um estigma...

(O tempo passa e eu olho pelas janelas do edifício a copa das árvores e o trânsito lá em baixo.)




Uma certa angústia e sensação de solidão insiste no peito... Um black out de sentidos. A mão escorrega para dentro do paletó que ainda não retirei depois que cheguei porque ainda sentia frio. Lá estava o cartãozinho do Dr. Freud. Eu havia me esquecido totalmente de ligar. O inconsciente é imperioso e constante. Infelizmente em raros momentos é que temos esses insights.






... Tempo...




O telefone toca:
Bette! Que agradável surpresa!
Como estou? Bem, acabo de chegar de um almoço com Clare e conversamos muito a respeito das nossas vidas, do vazio existencial e etc... A primeira vez que nos vimos depois da trágica morte de X.
Mas você me soa muito bem ao telefone. O que aconteceu?
O que? Valentin está na cidade? Que ótimo! Esteve com ele? Marcou algo? Não? Mas por que? Ah sim, sua agenda de trabalho está lotada para variar...
Eu fui convidado para uma festa neste fim de semana; um jovem e promissor jornalista faz aniversário. Vou convidar Valentin! Você bem que poderia achar um espacinho na sua agenda para nós, hein?
Ok! Aguardo você me ligar, aliás eu preciso muito ter uma de nossas conversas...
Beijos...




(Algumas horas ou alguns dias depois, não sei... Um espaço de tempo interno que não
combina com o tempo real de maneira nenhuma... )




Alô, Valentim? Tudo bem?
Bette me disse que estava na cidade e eu queria muito te ver. Vamos a um aniversário hoje a noite? Não fique constrangido, você passa a conhecê-lo na festa.
Então estamos combinados, nos encontramos na saída do metrô.
Na hora marcada Valentim estava lá. O frio era intenso, andamos até o apartamento.
A festa parecia ótima. Alguns amigos íntimos e queridos, mas todo o edifício estava sem energia elétrica. A festa se passou a luz de velas, que no final das contas ficou até charmosa.
No fim da noite decidimos descer e terminar a festa num "pub" próximo ao edifício.
O frio parecia aumentar e começava a chover, mas o programa foi divertido... Certas horas pensava em Bette, como gostaria de falar com ela certas coisas que só nós dois entenderíamos... pensei também em Clare... Os amigos tão raramente encontrados... O pic nic que nunca agendamos com Virginia. Como estaria ela? Esse momento precisa acontecer... por nós todos. Esse encontro com nós mesmos...
Na mesa tanto o que dizer... Mas o momento era o de ouvir. O Black out das sensações era menor, mas insistia...
De repente um conversível vermelho passa com a sua capota branca armada e vejo Gaga acenando... Não tive tempo nem de chamá-la para que sentasse conosco.
A noite terminou e todos se foram... Nem cheguei a conhecer de verdade a maioria daquelas pessoas... e até que gostaria muito.
E assim foi...
Os compromissos semanais nos engolem e vamos adiante e adiando...