sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Espaço entre os acontecimentos

Cara Virginia,
Há tempos venho pensando em lhe escrever. Tenho comentado com Bette, Clare e outras pessoas... Mas os assuntos seguem outros caminhos e a vida exige toda uma burocracia chata e corrida, sem nenhuma poesia, sem nenhuma paz...
Penso que você deve sentir tudo isso também. A necessidade de falar aquilo que a boca não consegue dizer... É tão difícil ...
Os olhos... Os olhos dos outros nos perseguem... e sem saber o que fazer, às vezes sorrimos, às vezes baixamos os olhos, às vezes encaramos...
Será que aqueles olhos podem nos compreender? Será que podemos nos comunicar? Será que é possível? Não sei, Virginia... Só sei que tenho tentado. E pelo que sei, você também.
Penso numa visita a sua casa, onde poderíamos trocar algumas experiências e idéias existenciais.
Penso que Bette e Clare podem ser boas companhias, são mulheres que de uma certa forma vivenciam a vida de uma forma bastante intensa e prática, a duras penas, eu sei, e que talvez possam nos elucidar algumas dúvidas; além de serem ótimas companhias.
Sei que você está no meio de um processo criativo, escrevendo um novo romance, mas quem sabe um encontro entre nós possa nos trazer alguns momentos de paz e prazer? Sei que a vida no campo tem lhe deixado ainda mais deprimida. Há muito tempo venho querendo lhe ver, saber de você como realmente está.
Bem, eu estou bem, com as mesmas questões, sentimentos e pensamentos, muitas vezes solitários e longos...
Às vezes penso no espaço entre os acontecimentos; o que fazer? O que dizer? Fumar um cigarro? Me tocar? Não sei... Tudo parece tão urgente e também tão ineficaz.
O que pensa sobre isso, Virginia? Como você vive isso? Como sente isso tudo?
Talvez nunca saibamos, mas só sei que sentimos...
Um beijo com carinho.
Espero sua resposta.