terça-feira, 20 de dezembro de 2011

“Universos paralelos”


Num mundo “moderno”, cada ser que circula pelas ruas ou dentro de seus minúsculos apartamentos, em cômodos de suas enormes mansões, debaixo de marquises, em leitos de hospitais, em salas de espera, em suas conduções de volta a casa depois do trabalho, vive uma realidade única e solitária. Comunica por máquinas, suas pequenas ou grandes necessidades e anseios. Nos comunicamos? Ou falamos para nós mesmos no discurso direcionado ao outro? Dizemos verdades e mentiras a nosso respeito e acreditamos nelas para nos confortar. Será que seu interlocutor pode te salvar? Será que não olhamos eternamente para o espelho e fazemos perguntas e damos respostas para nós mesmos?

O que se passa na cabeça daquele que está sentado ao seu lado na condução coletiva ou em pé no elevador? O verdadeiro encontro de seres, cada vez mais, parece ser um momento único e raro. O que sabemos do outro, a não ser, sobre nossas próprias verdades condicionadas e repetidas até a exaustão?

O viver se torna a cada dia mais próprio e único no percurso das horas no relógio. A troca verbal de informações só se faz quando não se tem a possibilidade de que as máquinas lhe digam o que fazer: Digite sua senha novamente, a palavra não foi encontrada em nossos arquivos, sua caixa de e-mails está cheia, seu pagamento foi realizado com sucesso, deixe seu recado na caixa postal, saldo parcial, saldo total, sua conta será debitada automaticamente no dia do vencimento, aperte o andar desejado, pagamento com código de barras ou digite os números encontrados na sua fatura, você poderá adquirir os resultados dos seus exames através do nosso site, aguarde sua vez na fila, por favor, vire a direita, toque a campainha e aguarde, não ultrapasse...

Serviços de aconselhamento on line surgem a cada dia.

Estamos todos conectados durante vinte e quatro horas por dia; tarefas infindáveis para cumprir, às vezes inventadas para arrolhar os vazios da existência. Compromissos marcados e confirmados com dias de antecedência para que possam caber em nossos agendas.

As brincadeiras na beira da praia da infância ficaram em algum local perdido no tempo e espaço da memória, quando o relógio não tinha a menor importância e o viver era fluxo e não compromisso. As árvores enormes de flores amarelas permanecem apenas na memória; na minha memória. Será que ficou na sua?

As águas escuras e salgadas da praia da infância banham apenas nossos sonhos nas noites em que dormimos.

O doce de leite da avó, feito no grande caldeirão para os netos no domingo, hoje é comprado a quilo nas prateleiras dos hipermercados. Cada um escolhe a marca de sua preferência, e a doce, quente e afetiva mão da avó já não existe mais para nos servir e acariciar nossos cabelos... A família está presente no álbum virtual de fotos no seu perfil do site de relacionamentos.

Vejo nos olhos de cada um a necessidade de um encontro real onde se possa “trocar” conteúdos e sentimentos. A cada encontro agendado, um desejo, uma expectativa de completude.

Depois desses anos, longos anos, a vida me parece um primeiro ensaio de um espetáculo que ainda não sabemos o fim. A vida me parece ser obra aberta.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Medidas profiláticas


Cara Virginia,

Não tente acreditar nas escrituras que regem os seus pensamentos e sentimentos, pois fazem parte de um universo paralelo da literatura íntima e fantasiosa de nossos “fantasmas – personagens” que nos assombram os sonhos e pesadelos diários.

O discurso, uma vez estabelecido e rotulado como loucura permanece na superfície da alma como sarna na pele do corpo físico. O que se passa em cada universo imenso e particular compete a cada um de nós carregar pelas ruelas tortuosas de nosso caminho.

Existe, no mundo que nos cerca, um completo e permanente estado de manutenção de aparências, necessário para a sobrevivência e conservação de uma realidade suportável.

Em algum momento, na difícil e dolorosa jornada de cada um de nós, nos encontrarmos não foi por acaso. Não acredite no que eles dizem; fique em estado de alerta e sanidade porque para pessoas sensíveis como nós, é necessário vigilância duplicada. Fardo da retificação de estados de sanidade, máscara da loucura; senhora anfitriã de nossos bailes.

O que nos importa se o poeta disse que festejamos com todo o nosso burburinho, apenas para encobrir o silêncio e disfarçar estados de desconforto?

Organize sua festa. Vista-se com o seu melhor vestido.

O baile vai começar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Estações anacrônicas


Cara Bette,

O verão se aproxima, e com ele aquela sensação fóbica e sufocante de sol baixo e suores desagradáveis.

Esta época já não me seduz tanto quanto nos tempos de infância; quando toda a família, primos, tios, pais e avós, partia para uma temporada de férias na praia de águas escuras e árvores grandes com flores amarelas. Entre bóias, sanduiches e areia, pulávamos e brincávamos. Crianças e adolescentes cheios de vida e promessas de um futuro ainda tão distante de realizações.

De alguma forma, nessa selva de edifícios cinzas e de gente correndo, falando em seus celulares, me recordo de um verão que ainda muito jovem vivi na companhia tão presente de Clare e X.

No início daquele verão, Clare e eu fomos convidados para passar uma temporada na casa de campo de X. Ele tinha assuntos importantes para nos contar e precisava de nossa companhia. Clare havia deixado a universidade por uns tempos depois da gravidez inesperada. X havia desistido da carreira que a família o impunha. O convite de X me chegou por carta e de alguma forma achei o conteúdo enigmático e denso. Clare e eu por telefone, alguns dias depois, marcamos de irmos juntos em seu carro.

Clare, eu e X vivíamos uma amizade bastante íntima e densa. Havíamos nos afastado depois de algumas revelações nada confortantes para os três, mas estávamos sempre em contato e quase que telepaticamente vivendo as experiências, pensamentos e emoções um do outro. A gravidez de Clare com alguém fora do nosso circulo nos abalara e fizera com que refletíssemos a respeito de nossas vidas.

Na manhã marcada, Clare estava britanicamente na portaria de meu edifício com suas malas. Deixara a filha com os avós. A viagem foi de alguma forma cheia de tensão, disfarçada de uma alegria construída. Ambos sabíamos que a convivência de nós três, por um certo período, poderia trazer lembranças e vivencias dolorosas para os três, mas o pedido de nosso amigo era quase que uma súplica.

A casa ficava no meio de um deserto, longe da praia, mas próxima a um lago. Propriedade da família de X

Na varanda, X nos recebeu com um ar tenso e um sorriso triste no rosto.

Naquela noite, o jantar foi especial, pois só tratamos de saber um do outro e de recordar os nossos bons tempos de Universidade. Mas como seria impossível, chegamos ao assunto que nos separara de alguma forma, a gravidez de Clare. Eu e X sentíamos como uma traição, mas jamais revelamos isso a ela que carregava culpa de nos ter traído, assim penso.

Os dias foram agradáveis, mas cheios de uma tensão que pairava no ar. Afinal, para que aquela viagem urgente, tão aparentemente sem motivo, a não ser para nos reencontrar?

Numa noite quente, quase sufocante, depois do jantar, Clare olhava a lua no céu brilhante, e devagar me aproximei. Ela me disse: O que estamos fazendo aqui? Será que o nosso tempo já não passou e estamos apenas tentando reviver sentimentos já tão esgotados de decepções e dores?

Eu não sabia o que dizer, mas sabíamos que algo estava para acontecer em breve. Naquele momento X na sala, jogado no sofá, um pouco alto de vinho, nos chamou. Entramos e ele então nos disse que acontecesse o que acontecesse, nós estaríamos sempre juntos, não é? Respondemos vacilantemente, eu e Clare, que sim, sem entender nada ou entendendo tudo, mas sem coragem de assumir.

Uma lágrima corria no rosto de X e por alguns momentos nos abraçamos os três e com quase total certeza, percebi que os dois também ofegavam com as lembranças que dividíamos.

X nos pediu para que o levássemos para seu quarto no andar de cima. Assim o fizemos. Deitado, ele nos pediu para que não o deixasse aquela noite. Os olhos de Clare buscaram os meus com cumplicidade e medo. X era uma pessoa que amávamos muito, cada um de sua forma, mas igualmente “perigosa”. Clare numa atitude quase que materna, acolheu X em seu colo acariciando seus cabelos enquanto ele se despia. Ao mesmo tempo, ele pede que me aproxime e que o ajude. Assim o fiz.

O calor era grande, muito mais pela situação que vivíamos do que pelo termômetro.

Sem muitas palavras, mas com atitudes quase condicionadas nos deitamos com X um de cada lado e com a permissão quase que deflagrada pelos nossos desejos, estávamos os três nus, e algum tempo depois, numa curta visita da razão, vi nossos corpos entrelaçados quase que como na fusão de um só.

Pela manhã, ao acordar, Clare já não estava na cama e X ainda dormia um sono profundo e pesado. Me vesti e desci. Clare tomava uma xícara de café na varanda e sem me olhar nos olhos disse: Fiz café. Sirva-se. Sem dizer uma palavra entrei na cozinha e me servi de uma enorme xícara de café quente.

Naquele momento Clare adentra a cozinha e me pergunta se tudo iria começar novamente. Se era isso que X propunha, ela iria embora naquele momento. Eu a detive e disse para que conversássemos com X e definitivamente resolvêssemos o que tanto nos pesava. Clare sai pela porta e diz que vai até o lago. Me sento. Durante o café acompanhado de um cigarro, ouço um gemido no andar de cima. Obviamente que era X. Subi e quando chego em seu quarto, ele nu de frente para o espelho chora e observa o seu corpo. Fráfil, me pede para dizer que o que via não era verdade. Que ele não iria morrer. Naquele momento perdi o controle e o abracei fortemente. Ele se jogou em meus braços pedindo para que eu dissesse que a marca óbvia no seu corpo não passava de ilusão. Não pude dizer nada, além de negar a mim mesmo e para ele que nada de mal o aconteceria. Não fazia idéia de como Clare poderia reagir aquela revelação. Clare era maternal com X e de mim exigia uma postura forte e decisiva com relação aos sentimentos que X nutria por mim e que eu não sabia administrar. Para mim, Clare sempre foi exemplo de razão, bondade, sensualidade... Não conseguíamos decifrar o que de fato significávamos um para o outro. Eu sentia uma espécie raiva quando Clare não esboçava nenhuma espécie de ciúme quando X, o mais emocional de nós três, me declarava o seu amor. Intimamente,eu deseja que Clare e ele disputassem o meu amor, talvez...