quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Nota de falecimento


As quatro estações do ano já se cumpriram quase todas, e como num ciclo permanente, os pensamentos e questões, insistem em se revezar.

Quanto tempo ainda a esperar pelas respostas que me faço, e faço ao tempo; senhor soberano de todos nós? Na verdade, ele me responde de uma forma sutil, que as respostas estão escondidas em cada um de nós.

Mas que missão mais intrigante, essa de viver o quotidiano.

O que ele quer de nós, o Senhor do Tempo, que persiste em nos manter cada vez mais em dúvida sobre nossas possibilidades? Somos brinquedos em suas mãos que nos manipulam como meros bonecos no enredo que criou e batizou de destino.

Quando eles retornarão? Lucidez e harmonia. Quando O Senhor Tempo nos dará um trégua de sua feroz ditadura?

O espelho, seu amigo íntimo, nos presenteia diariamente com sua sórdida face, os efeitos do mestre.

Que se quebrem todos os espelhos e todos os relógios! Que o Senhor do Tempo pare, para que possamos nos enxergar e olhar nos olhos daqueles que elegemos. Que o Senhor Tempo seja destituído de seu poder para dar lugar ao seu opositor mais feroz, o Prazer. Senhor que rege todos os nossos desejos.

De que verdade nos falam essas vozes que ouvimos? Escravos do Tempo. De onde tiraram tanta certeza de seus próprios “eus” e de seus míseros destinos mal e precariamente ensaiados? Não sabem de nada! Apenas fingem uma segurança e um autodomínio, baseado em experiências empoeiradas de cinzas de sabedoria ultrapassada. Calem a boca! Assistam a seus patéticos destinos previamente elaborados. Acorde, trabalhe, coma, faça sexo, ria de si mesmo na desgraça alheia. Dite regras e regras para seus descendentes. Julgue, julgue, julgue afirmando assim seus princípios baseados em frágeis verdades. Compre, compre, compre e morra sem eleger o prazer como seu imperador mor. E em sua lápide escreva: Eu vivi sob todas as regras absorvidas, até mesmo as que me permitiam, algumas vezes, experimentar um prazer secundário cheio de culpa. Mas fui “bem sucedido”, sem conhecer a mim mesmo nem ao meu próprio prazer.

E com um chá quente, servido numa xícara de porcelana na varanda de meu amigo Wilde, ao cair da tarde, depois de seu funeral, brindarei sua vitória. Parcial, burguesa e burra.