
Eu compro as flores!
Foi a única coisa que eu disse ao sair de casa antes de bater a porta. Na noite passada tinha falado com Bette rapidamente ao telefone e marcamos de almoçarmos e passarmos a tarde juntos falando de vários assuntos, muito mais relacionados a mim do que a ela. Estar com Bette é sempre muito agradável; ela é uma pessoa de personalidade forte, porém uma criatura encantadora quando está de bom humor. E mesmo de mau humor ela é maravilhosa, não é a toa que é uma atriz fantástica.
Estava excitado pelo encontro, pois tinha vários planos em mente.
Ao sair do prédio me deparei com uma manhã cinza e um tanto quanto fria. Perfeita para o aconchego de um longo papo junto a lareira, quem sabe?
Caminhei uns tres blocos e entrei na floricultura. O sininho da porta tocou e os olhos da atendente se levantaram, eu dei bom dia, mas imediatamente avistei Clare numa das galerias da loja. Demos um grande sorriso de surpresa e quase gritamos de felicidade. Com certeza aquele dia seria um dia bastante prazeroso. Clare é uma grande amiga que também quase não vejo por falta de tempo; mais dela do que meu. Nos abraçamos e nos beijamos. Ela estava elegane como sempre. Perguntei o que fazia ali, ela então me respondeu que estava comprando flores para a festa que iria dar naquela noite. Era uma festa para a comemoração de um prêmio que X havia ganhado pelo seu último lançamento. X é um excelente escritor, amigo de Clare que infelizmente tem uma doença crônica e anda deprimido devido as complicações da doença. Clare cuida de X rigorosamente com todo seu amor e admiração, pois ele não tem ninguém que o faça. São amigos de adolescência. Ela me disse que a festa seria naquela noite e me chamou para ir também. Eu agradeci, mas disse que talvez meu dia com Bette fosse longo e eu talvez não tivesse tempo de comparcer a sua festa. Ela me convidou muito mais por educação, já que há muito tempo não sou mais íntimo de X.
Clare é uma amiga daquelas com quem se pode contar sempre. Desde que conheci Clare percebi que tinhamos muito em comum. Clare uma vez me disse que se sente muito mediocre, pois seu cotidiano parece sempre o de resolver pequenos problemas aqui e ali, ajudando um e a outro para não pensar em sua própria vida que anda meio insípida e sem grandes prazeres. Aliás, X sempre diz que Clare está sempre dando festas para encobrir o silêncio. Ela me fez a mesma pergunta que havia feito a ela. Respondi que as flores eram para Bette e então ela disse que gostava muito de Bette também, e que fazia tempo que não a via. Mandou um grande beijo para ela e me prometeu que iriamos marcar de tomar um vinho num dos restaurantes da vizinhança e pôr os assuntos em dia. Ela já havia escolhido suas flores e me disse para levar rosas vermelhas para Bette. Agradeci a sugestão e nos despedimos. Ela estava com pressa pois tinha que ir a casa de X para arrumar tudo para aquela noite e dar uma força para ele. Mandei meu abraço e meus parabéns para X. Clare sai da loja. Permaneci ainda um tempo na loja sem saber ao certo o que escolher. A balconista me deu algumas sugestões, mas ainda não sabia exatamente o que levar... fiquei parado por um
tempo, pensando nos tempos em que eu e Claire, ainda bem jovens, passamos na casa da familia de um amigo dela. Era uma linda casa, mas num lugar tão distante... Eram os tempos de faculdade e nossos comportamentos e sentimentos eram muito exacerbados, tudo era dramático e radical, mas cheio de paixão e fidelidade... Tempos felizes...
(Tempo)
Toquei a campainha da casa de Bette e logo quem me atendeu foi uma jovem que não conhecia. Eu perguntei sobre Bette e ela me disse, enquanto cuidava de guardar minha capa, chapéu e cuidava das flores, que ela estava se aprontando e que desceria em breve. Eu agradeci e por curiosidade perguntei o nome da moça. Ela me respondeu: Eve! Eu me apresentei também. Achei algo de estranho em Eve, mas não sabia descrever naquele momento. Ela parecia educada e solícita demais. Sempre desconfio de pessoas assim... algumas vezes durante a agradável tarde com Bette, tive a impressão de ver Eve nos espiando, tentando ouvir o que diziamos. Comentei com Bette que não deu muita importância ao que eu dissera. Bette me disse que Eve era uma fã que se tornara sua criada.
(Uns dez minutos)
Esperei. E então surge Bette descendo a escada com um belíssimo vestido preto, sóbrio como aquela tarde.
Darling! How are you?
(Durante o chá, na varanda depois do magnífico almoço)
Sabe Bette, tenho pensado muito sobre vários assuntos... coisas minhas e de alguns amigos...
Tenho me questionado como as pessoas hoje se sentem solitárias, mas precisam parecer auto suficientes, poderosas e bem sucedidas. Confesso que essa falta de perspectivsa profissional tem me abalado muito e que não consigo ainda enxergar uma solução imediata. A angústia de não saber o que acontecerá no futuro me deixa ansioso e acabo não conseguindo organizar meus pensamentos, sem saber para que lado irei... que caminho tomar... o que estou deixando de fazer para que as pessoas me enxerguem como alguém capaz de muitas coisas, que tem alguns talentos e vocações, mas que ainda não se deslancharam por completo. O que as pessoas ao redor me dizem é que é uma fase, mas que fase! Confesso que comecei a escrever para pelo menos depositar energia e tempo em algo útil. Me lembrei de Clare, encontrei com ela hoje na floricultura e lhe mandou lembranças.
Ainda quero falar muitas coisas, mas não posso esquecer de lhe contar a idéia que tive. Que tal se marcassemos um pic nic na casa de Virginia? Eu, você, Gaga, Madonna e Virginia. Seria uma ótima oportunidade de nós estarmos juntos pelo menos uma vez esse ano. Eu sei Bette, que Leonard pode se meter mas sei convencê-lo, pode deixar. Acho que Virginia resume muito daquilo que todos sentimos, cada um da sua forma e intensidade. Ela está precisando de visitas... Vive muito isolada!
Bem, eu... queria lhe perguntar uma coisa... Não me olhe com esses olhos enormes, pensando que é algo invasivo demais! Queria saber o telefone do seu analista. Bette dá uma sonora gargalhada que me deixa sem graça. Depois disso chama Eve que vem rapidamente, o que me faz desconfiar ainda mais, porque ninguém chega tão rápido assim se não está tão próximo, ou escondido, ouvindo os assuntos. Bette não esboça nenhum espanto com a estranha e rápida aparição de Eve sempre tão solícita. Bette, pede a Eve que traga o cartãozinho do seu analista que está no criado mudo. Depois de um certo tempo Eve me entrega um cartão de visitas simples, porém bastante distinto com o nome: Dr Sigmund Freud. Neurologista e Psicanalista. Imediatamente pus no bolso e agradeci.
A tarde tinha sido bastante agradável e já era noite quando deixei a casa de Bette. No caminho, olhei novamnte o cartãozinho de visitas do médico e li seu nome, agora bem baixinho, para mim mesmo.
Dormi muito rápido aquela noite. Estava cansado de tanto pensar em possibilidades profissionais, dilemas existenciais e etc... Na manhã seguinte, tomando meu café e lendo o jornal, me surpreendo com a notícia: “ O famoso escritor X faleceu ontem a tarde vitima de suicidio” O escritor, premiado recentemente se jogou da janela de seu apartamento.
Pensei imediatamente em Clare. Tenho que ligar para ela...
Foi a única coisa que eu disse ao sair de casa antes de bater a porta. Na noite passada tinha falado com Bette rapidamente ao telefone e marcamos de almoçarmos e passarmos a tarde juntos falando de vários assuntos, muito mais relacionados a mim do que a ela. Estar com Bette é sempre muito agradável; ela é uma pessoa de personalidade forte, porém uma criatura encantadora quando está de bom humor. E mesmo de mau humor ela é maravilhosa, não é a toa que é uma atriz fantástica.
Estava excitado pelo encontro, pois tinha vários planos em mente.
Ao sair do prédio me deparei com uma manhã cinza e um tanto quanto fria. Perfeita para o aconchego de um longo papo junto a lareira, quem sabe?
Caminhei uns tres blocos e entrei na floricultura. O sininho da porta tocou e os olhos da atendente se levantaram, eu dei bom dia, mas imediatamente avistei Clare numa das galerias da loja. Demos um grande sorriso de surpresa e quase gritamos de felicidade. Com certeza aquele dia seria um dia bastante prazeroso. Clare é uma grande amiga que também quase não vejo por falta de tempo; mais dela do que meu. Nos abraçamos e nos beijamos. Ela estava elegane como sempre. Perguntei o que fazia ali, ela então me respondeu que estava comprando flores para a festa que iria dar naquela noite. Era uma festa para a comemoração de um prêmio que X havia ganhado pelo seu último lançamento. X é um excelente escritor, amigo de Clare que infelizmente tem uma doença crônica e anda deprimido devido as complicações da doença. Clare cuida de X rigorosamente com todo seu amor e admiração, pois ele não tem ninguém que o faça. São amigos de adolescência. Ela me disse que a festa seria naquela noite e me chamou para ir também. Eu agradeci, mas disse que talvez meu dia com Bette fosse longo e eu talvez não tivesse tempo de comparcer a sua festa. Ela me convidou muito mais por educação, já que há muito tempo não sou mais íntimo de X.
Clare é uma amiga daquelas com quem se pode contar sempre. Desde que conheci Clare percebi que tinhamos muito em comum. Clare uma vez me disse que se sente muito mediocre, pois seu cotidiano parece sempre o de resolver pequenos problemas aqui e ali, ajudando um e a outro para não pensar em sua própria vida que anda meio insípida e sem grandes prazeres. Aliás, X sempre diz que Clare está sempre dando festas para encobrir o silêncio. Ela me fez a mesma pergunta que havia feito a ela. Respondi que as flores eram para Bette e então ela disse que gostava muito de Bette também, e que fazia tempo que não a via. Mandou um grande beijo para ela e me prometeu que iriamos marcar de tomar um vinho num dos restaurantes da vizinhança e pôr os assuntos em dia. Ela já havia escolhido suas flores e me disse para levar rosas vermelhas para Bette. Agradeci a sugestão e nos despedimos. Ela estava com pressa pois tinha que ir a casa de X para arrumar tudo para aquela noite e dar uma força para ele. Mandei meu abraço e meus parabéns para X. Clare sai da loja. Permaneci ainda um tempo na loja sem saber ao certo o que escolher. A balconista me deu algumas sugestões, mas ainda não sabia exatamente o que levar... fiquei parado por um
tempo, pensando nos tempos em que eu e Claire, ainda bem jovens, passamos na casa da familia de um amigo dela. Era uma linda casa, mas num lugar tão distante... Eram os tempos de faculdade e nossos comportamentos e sentimentos eram muito exacerbados, tudo era dramático e radical, mas cheio de paixão e fidelidade... Tempos felizes...
(Tempo)
Toquei a campainha da casa de Bette e logo quem me atendeu foi uma jovem que não conhecia. Eu perguntei sobre Bette e ela me disse, enquanto cuidava de guardar minha capa, chapéu e cuidava das flores, que ela estava se aprontando e que desceria em breve. Eu agradeci e por curiosidade perguntei o nome da moça. Ela me respondeu: Eve! Eu me apresentei também. Achei algo de estranho em Eve, mas não sabia descrever naquele momento. Ela parecia educada e solícita demais. Sempre desconfio de pessoas assim... algumas vezes durante a agradável tarde com Bette, tive a impressão de ver Eve nos espiando, tentando ouvir o que diziamos. Comentei com Bette que não deu muita importância ao que eu dissera. Bette me disse que Eve era uma fã que se tornara sua criada.
(Uns dez minutos)
Esperei. E então surge Bette descendo a escada com um belíssimo vestido preto, sóbrio como aquela tarde.
Darling! How are you?
(Durante o chá, na varanda depois do magnífico almoço)
Sabe Bette, tenho pensado muito sobre vários assuntos... coisas minhas e de alguns amigos...
Tenho me questionado como as pessoas hoje se sentem solitárias, mas precisam parecer auto suficientes, poderosas e bem sucedidas. Confesso que essa falta de perspectivsa profissional tem me abalado muito e que não consigo ainda enxergar uma solução imediata. A angústia de não saber o que acontecerá no futuro me deixa ansioso e acabo não conseguindo organizar meus pensamentos, sem saber para que lado irei... que caminho tomar... o que estou deixando de fazer para que as pessoas me enxerguem como alguém capaz de muitas coisas, que tem alguns talentos e vocações, mas que ainda não se deslancharam por completo. O que as pessoas ao redor me dizem é que é uma fase, mas que fase! Confesso que comecei a escrever para pelo menos depositar energia e tempo em algo útil. Me lembrei de Clare, encontrei com ela hoje na floricultura e lhe mandou lembranças.
Ainda quero falar muitas coisas, mas não posso esquecer de lhe contar a idéia que tive. Que tal se marcassemos um pic nic na casa de Virginia? Eu, você, Gaga, Madonna e Virginia. Seria uma ótima oportunidade de nós estarmos juntos pelo menos uma vez esse ano. Eu sei Bette, que Leonard pode se meter mas sei convencê-lo, pode deixar. Acho que Virginia resume muito daquilo que todos sentimos, cada um da sua forma e intensidade. Ela está precisando de visitas... Vive muito isolada!
Bem, eu... queria lhe perguntar uma coisa... Não me olhe com esses olhos enormes, pensando que é algo invasivo demais! Queria saber o telefone do seu analista. Bette dá uma sonora gargalhada que me deixa sem graça. Depois disso chama Eve que vem rapidamente, o que me faz desconfiar ainda mais, porque ninguém chega tão rápido assim se não está tão próximo, ou escondido, ouvindo os assuntos. Bette não esboça nenhum espanto com a estranha e rápida aparição de Eve sempre tão solícita. Bette, pede a Eve que traga o cartãozinho do seu analista que está no criado mudo. Depois de um certo tempo Eve me entrega um cartão de visitas simples, porém bastante distinto com o nome: Dr Sigmund Freud. Neurologista e Psicanalista. Imediatamente pus no bolso e agradeci.
A tarde tinha sido bastante agradável e já era noite quando deixei a casa de Bette. No caminho, olhei novamnte o cartãozinho de visitas do médico e li seu nome, agora bem baixinho, para mim mesmo.
Dormi muito rápido aquela noite. Estava cansado de tanto pensar em possibilidades profissionais, dilemas existenciais e etc... Na manhã seguinte, tomando meu café e lendo o jornal, me surpreendo com a notícia: “ O famoso escritor X faleceu ontem a tarde vitima de suicidio” O escritor, premiado recentemente se jogou da janela de seu apartamento.
Pensei imediatamente em Clare. Tenho que ligar para ela...
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