
O que se passa na cabeça daquele que está sentado ao seu lado na condução coletiva ou em pé no elevador? O verdadeiro encontro de seres, cada vez mais, parece ser um momento único e raro. O que sabemos do outro, a não ser, sobre nossas próprias verdades condicionadas e repetidas até a exaustão?
O viver se torna a cada dia mais próprio e único no percurso das horas no relógio. A troca verbal de informações só se faz quando não se tem a possibilidade de que as máquinas lhe digam o que fazer: Digite sua senha novamente, a palavra não foi encontrada em nossos arquivos, sua caixa de e-mails está cheia, seu pagamento foi realizado com sucesso, deixe seu recado na caixa postal, saldo parcial, saldo total, sua conta será debitada automaticamente no dia do vencimento, aperte o andar desejado, pagamento com código de barras ou digite os números encontrados na sua fatura, você poderá adquirir os resultados dos seus exames através do nosso site, aguarde sua vez na fila, por favor, vire a direita, toque a campainha e aguarde, não ultrapasse...
Serviços de aconselhamento on line surgem a cada dia.
Estamos todos conectados durante vinte e quatro horas por dia; tarefas infindáveis para cumprir, às vezes inventadas para arrolhar os vazios da existência. Compromissos marcados e confirmados com dias de antecedência para que possam caber em nossos agendas.
As brincadeiras na beira da praia da infância ficaram em algum local perdido no tempo e espaço da memória, quando o relógio não tinha a menor importância e o viver era fluxo e não compromisso. As árvores enormes de flores amarelas permanecem apenas na memória; na minha memória. Será que ficou na sua?
As águas escuras e salgadas da praia da infância banham apenas nossos sonhos nas noites em que dormimos.
O doce de leite da avó, feito no grande caldeirão para os netos no domingo, hoje é comprado a quilo nas prateleiras dos hipermercados. Cada um escolhe a marca de sua preferência, e a doce, quente e afetiva mão da avó já não existe mais para nos servir e acariciar nossos cabelos... A família está presente no álbum virtual de fotos no seu perfil do site de relacionamentos.
Vejo nos olhos de cada um a necessidade de um encontro real onde se possa “trocar” conteúdos e sentimentos. A cada encontro agendado, um desejo, uma expectativa de completude.
Depois desses anos, longos anos, a vida me parece um primeiro ensaio de um espetáculo que ainda não sabemos o fim. A vida me parece ser obra aberta.
Magnífico e pleno de nudez, uma pele despojada e oferecida ao olho da "verdade" que certamente deflagra a distância a cada dia maior e recorrente de nossos estados, humanos? Me pergunto, também para onde vai a nossa capacidade de aproximar? Ela não está também no ensejo que nos move os dedos frenéticos na moderna máquina de escrever e instantaneamente conduzir o recado? A nossa paixão não foi dragada pelos códigos de barra do mundo, do que fica para mim no teu protesto manso e vociferado, é a certeza de que o hoje certamente afasta os homens tão insanos,ao mesmo passo talvez,não sei dizer ao certo, já que estamos em obra aberta, aproxima-nos cada vez mais da vontade de estarmos juntos, de sermos sim entendidos e amados, compreendidos e abrigados. E quem sabe, os espelhos da falácia não sejam também muito por conta do exercício de nos diluirmos um pouco, exatamente nos recompondo, no exato momento em que tão dificilmente mas também urgente para nossa dor, conseguimos esquecer um pouquinho de nós mesmos! Amei! Muito chão para reflexão, muito céu pra o imenso véu da noiva da vida.
ResponderExcluirBeijos! Parabéns! Marcelo Tosta
Meu caro, gosto muito da concepção da Modernidade Líquida, onde tudo se desfaz por ser contruído em cima de nada... As relações estão cada vez mais vazias e baseadas em dogmas que eu realmente não quero aceitar... O melhor é saber que ainda existem cabeças pensantes com a necessidade de contestar, de gritar para quem queira ouvir essa porcaria toda em que a humanidade aos poucos se transforma... Bjo..
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