quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Estações anacrônicas


Cara Bette,

O verão se aproxima, e com ele aquela sensação fóbica e sufocante de sol baixo e suores desagradáveis.

Esta época já não me seduz tanto quanto nos tempos de infância; quando toda a família, primos, tios, pais e avós, partia para uma temporada de férias na praia de águas escuras e árvores grandes com flores amarelas. Entre bóias, sanduiches e areia, pulávamos e brincávamos. Crianças e adolescentes cheios de vida e promessas de um futuro ainda tão distante de realizações.

De alguma forma, nessa selva de edifícios cinzas e de gente correndo, falando em seus celulares, me recordo de um verão que ainda muito jovem vivi na companhia tão presente de Clare e X.

No início daquele verão, Clare e eu fomos convidados para passar uma temporada na casa de campo de X. Ele tinha assuntos importantes para nos contar e precisava de nossa companhia. Clare havia deixado a universidade por uns tempos depois da gravidez inesperada. X havia desistido da carreira que a família o impunha. O convite de X me chegou por carta e de alguma forma achei o conteúdo enigmático e denso. Clare e eu por telefone, alguns dias depois, marcamos de irmos juntos em seu carro.

Clare, eu e X vivíamos uma amizade bastante íntima e densa. Havíamos nos afastado depois de algumas revelações nada confortantes para os três, mas estávamos sempre em contato e quase que telepaticamente vivendo as experiências, pensamentos e emoções um do outro. A gravidez de Clare com alguém fora do nosso circulo nos abalara e fizera com que refletíssemos a respeito de nossas vidas.

Na manhã marcada, Clare estava britanicamente na portaria de meu edifício com suas malas. Deixara a filha com os avós. A viagem foi de alguma forma cheia de tensão, disfarçada de uma alegria construída. Ambos sabíamos que a convivência de nós três, por um certo período, poderia trazer lembranças e vivencias dolorosas para os três, mas o pedido de nosso amigo era quase que uma súplica.

A casa ficava no meio de um deserto, longe da praia, mas próxima a um lago. Propriedade da família de X

Na varanda, X nos recebeu com um ar tenso e um sorriso triste no rosto.

Naquela noite, o jantar foi especial, pois só tratamos de saber um do outro e de recordar os nossos bons tempos de Universidade. Mas como seria impossível, chegamos ao assunto que nos separara de alguma forma, a gravidez de Clare. Eu e X sentíamos como uma traição, mas jamais revelamos isso a ela que carregava culpa de nos ter traído, assim penso.

Os dias foram agradáveis, mas cheios de uma tensão que pairava no ar. Afinal, para que aquela viagem urgente, tão aparentemente sem motivo, a não ser para nos reencontrar?

Numa noite quente, quase sufocante, depois do jantar, Clare olhava a lua no céu brilhante, e devagar me aproximei. Ela me disse: O que estamos fazendo aqui? Será que o nosso tempo já não passou e estamos apenas tentando reviver sentimentos já tão esgotados de decepções e dores?

Eu não sabia o que dizer, mas sabíamos que algo estava para acontecer em breve. Naquele momento X na sala, jogado no sofá, um pouco alto de vinho, nos chamou. Entramos e ele então nos disse que acontecesse o que acontecesse, nós estaríamos sempre juntos, não é? Respondemos vacilantemente, eu e Clare, que sim, sem entender nada ou entendendo tudo, mas sem coragem de assumir.

Uma lágrima corria no rosto de X e por alguns momentos nos abraçamos os três e com quase total certeza, percebi que os dois também ofegavam com as lembranças que dividíamos.

X nos pediu para que o levássemos para seu quarto no andar de cima. Assim o fizemos. Deitado, ele nos pediu para que não o deixasse aquela noite. Os olhos de Clare buscaram os meus com cumplicidade e medo. X era uma pessoa que amávamos muito, cada um de sua forma, mas igualmente “perigosa”. Clare numa atitude quase que materna, acolheu X em seu colo acariciando seus cabelos enquanto ele se despia. Ao mesmo tempo, ele pede que me aproxime e que o ajude. Assim o fiz.

O calor era grande, muito mais pela situação que vivíamos do que pelo termômetro.

Sem muitas palavras, mas com atitudes quase condicionadas nos deitamos com X um de cada lado e com a permissão quase que deflagrada pelos nossos desejos, estávamos os três nus, e algum tempo depois, numa curta visita da razão, vi nossos corpos entrelaçados quase que como na fusão de um só.

Pela manhã, ao acordar, Clare já não estava na cama e X ainda dormia um sono profundo e pesado. Me vesti e desci. Clare tomava uma xícara de café na varanda e sem me olhar nos olhos disse: Fiz café. Sirva-se. Sem dizer uma palavra entrei na cozinha e me servi de uma enorme xícara de café quente.

Naquele momento Clare adentra a cozinha e me pergunta se tudo iria começar novamente. Se era isso que X propunha, ela iria embora naquele momento. Eu a detive e disse para que conversássemos com X e definitivamente resolvêssemos o que tanto nos pesava. Clare sai pela porta e diz que vai até o lago. Me sento. Durante o café acompanhado de um cigarro, ouço um gemido no andar de cima. Obviamente que era X. Subi e quando chego em seu quarto, ele nu de frente para o espelho chora e observa o seu corpo. Fráfil, me pede para dizer que o que via não era verdade. Que ele não iria morrer. Naquele momento perdi o controle e o abracei fortemente. Ele se jogou em meus braços pedindo para que eu dissesse que a marca óbvia no seu corpo não passava de ilusão. Não pude dizer nada, além de negar a mim mesmo e para ele que nada de mal o aconteceria. Não fazia idéia de como Clare poderia reagir aquela revelação. Clare era maternal com X e de mim exigia uma postura forte e decisiva com relação aos sentimentos que X nutria por mim e que eu não sabia administrar. Para mim, Clare sempre foi exemplo de razão, bondade, sensualidade... Não conseguíamos decifrar o que de fato significávamos um para o outro. Eu sentia uma espécie raiva quando Clare não esboçava nenhuma espécie de ciúme quando X, o mais emocional de nós três, me declarava o seu amor. Intimamente,eu deseja que Clare e ele disputassem o meu amor, talvez...

Um comentário:

  1. É sempre um prazer , ler os seus textos. Continuando na seara do prazer, em um dia qualquer de um mês do ano que vivemos, não seremos anacrônicos, mas sensíveis aos sentimentos vividos e aos vigentes nesse exato momento.
    Inocência, infância, proteção, família, amigos, diversão, amores, desilusões. Estou a sombra de uma frondosa árvore, num lindo descampado numa tarde ensolarada de um dia de verão. Confesso que gosto de verão, talvez seja justamente por ser a estação onde o sol, impetuosamente, ilumina e esquenta meu corpo e me cega perante às lembranças que me desconfortam.
    Lembrança do que vivi, saudade do amor que senti, dúvida do que viverei amanhã. Existirá o amanhã? Tornar-me-ei um homem digno de elogios ou já não serei mais ninguém?
    Lendo seu prazeroso texto e tentando me expressar nesse emaranhado de vocábulos desordenados, eu sigo a vida tentando entender quem eu sou, peço desculpas ao meu passado, por talvez não ter vivido de forma digna e vivo o presente com uma tranquilidade que nunca havia experimentado. Talvez seja coisa da idade!!! Kkkkkkkkkkkkk..........................a vida é um presente indecifrável que ganhamos ao nascer.

    ResponderExcluir